Sendo quem hoje sou e distanciando-me de quem um dia fui...
Percorro o meu passado com uma apatia aparente na alma.
Um dia achei que tinha perdido quase tudo.
Sim, quase tudo porque só me faltava perder a vida…
E tudo fiz por me castigar por isso, como se a culpa dos erros dos outros fosse minha…
Como se a opção, ou a falta dela, tivesse sido condicionada pelos meus actos…
E durante muitos anos culpei-me por isso, e quase sucumbi a essa culpa….
Um dia descobri que a dor física acalmava por ínfimos momentos a dor psicológica…
Então decidi juntar o útil ao agradável.
Enquanto andava a “porrada”, descarregava a raiva que sentia …
E ao ser espancada sentia um alívio assustador…
Durante tempos julguei ser este o caminho certo para acabar com o meu sofrimento.
Mais uma vez errei… esse caminho, apenas me levava a própria destruição.
Acho que inconscientemente era isso que eu queria.
Destruir-me da forma mais dolorosa que podia existir, pois não tinha coragem de por termo ao meu sofrimento de vez…
Um dia um grupo de pessoas a quem posso chamar de amigos, perceberam a minha dor…
E tudo fizeram para me ajudar a ultrapassar essa dor, acima de tudo nunca me julgaram…
Até hoje não percebo como se mantiveram ao meu lado, obrigada
Foi um caminho penoso, o da percepção da cruel realidade…
Mas, graças a eles…
Um dia percebi que afinal não tinha perdido tudo, estava viva e acima de tudo não tinha perdido a minha dignidade…
Que se perdiam umas coisas mas que se ganhavam outras.
Umas coisas não compensam as outras, mas pelo menos servem para nos ajudar a ver que nunca perdemos tudo e que a dignidade é a única coisa que nos pode acompanhar mesmo depois da morte.
Afinal sou só mais uma sobrevivente….
Actualmente a culpa não desapareceu, mas aprendi a viver com ela e acima de tudo a controlar a minha raiva.
Mas, até quando?