Já algum tempo que por aqui não apareço. Não julguem que me esqueci de vocês, também não é por estar ocupada, apenas não sei que mais vos dizer, sem que me torne repetitiva. Acho que hoje, em homenagem aos tempos que passamos todos juntos, vou tentar explicar, como me sinto actualmente.
Fez na segunda-feira 6 anos que morri, até hoje não sei se fui eu que me matei ou se foram vocês. Mas isso é o que menos importa neste momento.
Esta afirmação é estranha se morri como posso estar aqui a escrever o que sinto.
No dicionário morrer significa: “Cessar de viver, perder todo o movimento vital, falecer. Fig. Experimentar uma forte sensação (moral ou física) intensamente desagradável; sofrer muito: ele parece morrer de tristeza. Cessar, extinguir-se (falando das coisas morais). Diz-se de um som que pouco se vai esvaecendo até extinguir-se de todo. Desmerecer, perder o brilho; tornar-se menos vivo (falando de cores). Aniquilar-se, deixar de ser ou de ter existência.”Eu não cessei de viver, nem perdi os movimentos vitais, mas deixei de ter existência.
A tristeza profunda da perda da minha melhor amiga, aliada ao choque de passadas 3 semana te ver morrer a minha frente, destruiu-me. Se 3 semana antes uma parte de mim morreu com ela, 3 semanas depois a bala que disparas-te não me acertou no corpo, mas atingiu 100% na alma. Há quem lhe chame danos colaterais, eu continuo a procura da palavra certa para definir o que se passou naquela noite.
Quando penso naqueles dias, o que acontece a quase todo o instante, não sei se o que me revolta mais. È o simples facto de ter descoberto que afinal não sabia o que era a solidão e naquele momento em que me encontrava sozinha e os nossos amigos se despediam de ti pela última vez, ela se apoderou de mim, ou de descobrir que afinal a fortaleza que eu achava que era não existia e que afinal era uma pessoa fraca.
No momento em que tomei consciência que estava sozinha, não conseguia respirar. As lágrimas rolavam-me pela cara e eu só queria gritar a todos, que a culpa de se estarem a despedir de ti, era toda minha. Que eu podia e devia ter feito alguma coisa para evitar a morte dolorosa que tiveste. Mas tu pedis-te tanto, que te ajudasse a salvar a vida da filha que carregavas, que guardei o segredo, e esse segredo foi-me corroendo as entranhas e tornando-me uma pessoa triste e amargurada de dia para dia. Eu sei que se por um momento tu suspeitasses das consequências desse teu pedido que jamais o terias feito. Eu não te culpo a ti por o teres feito, culpo-me a mim por o ter aceitado. Até hoje não consigo ir a tua casa, até hoje não consigo olhar para a tua filha sem pensar, que é ela o motivo de não estares aqui. Sei que sou egoísta, mas também sei que se perdeu um excelente ser humano e não sei se nasceu um.
Quando penso nestes quase dois anos que passamos todos juntos, consigo ver que se para mim não foi fácil ver-te morrer e acompanhar todo este processo, para ele também não foi fácil ver-me sofrer. Nem consigo imaginar o que ele também deve ter sofrido. Estava muito ocupada a ter pena e raiva de nós próprias.
Lembras-te, quando me disseste que eu estava apaixonada por ele. E que já era tão evidente que estava na altura de tomar uma decisão? (Tenho momentos que também me culpo pela decisão que tomei. Esta decisão estragou a vida de 3 pessoas. Pensando bem de 5 pessoas.)
Quando me lembro do passado tenho momentos em que penso que nada daquilo aconteceu, que foi tudo um sonho, ou melhor um conto de fadas. Se Shakespeare fosse vivo teria se inspirado em nós para escrever mais uma peça de teatro.
O sono começa a aparecer, vou descansar e tentar não sonhar com aquela noite. Voltarei para terminar o meu desabafo.
Não fiquem chateados comigo…

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